terça-feira, 15 de maio de 2012

O que realmente importa

A gata Christie enrosca-se no meu colo e semi-cerra os olhos quando lhe passo os dedos pelo interior das orelhas. Mordisca-me o indicador e desata a lamber-me a mão nos intervalos. Está viciada na comida fresca do Felix. Ainda nem acabei de esvaziar o pacote e já ela mete o focinho e molha os bigodes no prato. Quando me lambe os dedos deve lembrar-se que sou quem lhe dá saborosas refeições. Há várias maneiras de dar importância ao que realmente importa, mas há muitas mais de desprezá-lo. Tenho passado os últimos tempos a tentar aprender uma ferramenta, que julgo inata, de auto-controlo. Às vezes dou por ela a fugir-me entre os dedos, já depois de ter dado uma resposta irritada, de ter enviado um email demasiado irónico ou de, simplesmente, ter dito mais do que simplesmente "caneco". Devo ter ouvido, numa qualquer formação, nos últimos 19 anos, que a impulsividade é inimiga da paz de espírito e da boa gestão. Sobretudo, é inimiga do sentimento de dar importância ao que realmente importa. A gata Christie não foi aos workshops de liderança e afins. Mas sabe mais do que eu.

sábado, 12 de maio de 2012

breve e semi-breve

A morte de uma figura pública permite vozes demais. Se o País perde um talento, um virtuoso, um homem genial, porque importa a forma como realmente o perdeu? Tantos génios ficam perdidos, enquanto vivem e duram, sem que consigamos saber deles, dar conta, anunciar, admirar e até senti-los. Se a morte é acidental, lamentamos. Se a morte vem de embalo nessa dura realidade que é o querer apressá-la, também lamentamos. A morte é apenas morte quando perdemos os que amamos. Pelo menos, naquele exacto momento. Um homem novo fará sempre falta, nem que seja à sua mãe. Um homem, pai, fará sempre falta à mais tenra família e prole. Um amigo será sempre lembrado e deixa saudade o abraço. E o amor também não vai, como se fosse o fim. O artista que parte deixa o mundo mais pobre. Ou mais rico, porque nele passou e deixou. A vida é breve se somos felizes. Semi-breve, se ocupados. Morte, se estamos sós.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Tempos do dia

Na mesa do almoço, na cantina onde uma boa percentagem de colegas já leva marmita, fico a saber que duas colegas que moram longe, mas no percurso uma da outra, partilham viagem na ida e regresso do trabalho e para casa. Uma a cada dia, alternam o transporte próprio que as carrega às duas em horários que são, por sorte, compatíveis. Neste dia fico ainda a saber que uma mulher nos seus 30 e muitos desiste do ginásio porque lhe falta ginástica no orçamento para pagar a casa. Um luxo, dirão muitos, um escape, pensará a que terá de encontrar outro, a preço zero. À porta do MacDonalds uma mulher pede dinheiro para qualquer coisa e, lá dentro, pede-o para um hambúrguer. Dou-lhe para qualquer coisa e recordo àquele olhar vítreo dominado pelo odor a tinto que já nos cruzámos antes. Veste um casaco pesado, também pelo surro, escuro, também pelo pó, e não lhe noto nada nas mãos. Talvez use os bolsos para acumular moedas, mas nem se ouvem tilintar. Terá uns 50 anos, não muito mais, e uma vida perdida no passado e, parece, para sempre. Os olhos terão sido claros, antes de destroçados por uma garrafa de tampa de cortiça a dar conta da idade do vinho. A gata Christie passa pelo meu colo à procura de espaço. É maior o dela, que o da vida de tantos.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Um pingo

Chove a cântaros, à varanda. Afinal, custa a arrancar. Pensei que a inspiração viesse com a vontade de pensar alto, mas não. Ocorrem-me temas batidos e assuntos conversados ao longo do dia por tantos. A monotonia parece não querer deixar descolar a palavra, a diferença, e o título sai riscado e enganador. A gata christie está feita "lampreia" no pufe (escrita livre) verde. Gosta da comida de gato que ofereceram na Feira do Livro num sábado à tarde em que também choveu. O que faz um rapaz (seria?), trajado a felino, num Parque Eduardo VII de prateleiras soltas? Entrega-me em mão duas embalagens de fresca, pelos vistos apetitosa e devorada num ápice, comida de gato. A gata lambe os bigodes e não filmo para mostrar no "Gosto Disto" porque me cabe gostar e ficar com a imagem só para mim. O prato está vazio. Um pingo de chuva ouve-se bater no corrimão e o barulho não assusta ninguém. Espero para ver mais um episódio de "Wallander" e passei por aqui com esperança de ter melhor do que isto. Não tenho. Vou. Ela que venha para as minhas pernas e depois conto como foi.