terça-feira, 8 de maio de 2012
Tempos do dia
Na mesa do almoço, na cantina onde uma boa percentagem de colegas já leva marmita, fico a saber que duas colegas que moram longe, mas no percurso uma da outra, partilham viagem na ida e regresso do trabalho e para casa. Uma a cada dia, alternam o transporte próprio que as carrega às duas em horários que são, por sorte, compatíveis.
Neste dia fico ainda a saber que uma mulher nos seus 30 e muitos desiste do ginásio porque lhe falta ginástica no orçamento para pagar a casa. Um luxo, dirão muitos, um escape, pensará a que terá de encontrar outro, a preço zero.
À porta do MacDonalds uma mulher pede dinheiro para qualquer coisa e, lá dentro, pede-o para um hambúrguer. Dou-lhe para qualquer coisa e recordo àquele olhar vítreo dominado pelo odor a tinto que já nos cruzámos antes. Veste um casaco pesado, também pelo surro, escuro, também pelo pó, e não lhe noto nada nas mãos. Talvez use os bolsos para acumular moedas, mas nem se ouvem tilintar. Terá uns 50 anos, não muito mais, e uma vida perdida no passado e, parece, para sempre. Os olhos terão sido claros, antes de destroçados por uma garrafa de tampa de cortiça a dar conta da idade do vinho.
A gata Christie passa pelo meu colo à procura de espaço. É maior o dela, que o da vida de tantos.
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
Sem comentários:
Enviar um comentário